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Algumas Coisas Não Sabem Como Terminar

Sobre despedidas que parecem temporárias, lugares aos quais voltamos e coisas que estou tentando transformar em código.

5 min de leitura

Tenho pensado bastante sobre despedidas ultimamente.

Não sei exatamente quando comecei.

Talvez porque algumas coisas simplesmente terminem, enquanto outras parecem não conseguir decidir se acabaram ou não.

Na programação, pelo menos, isso costuma ser um pouco mais simples.

Você inicia um processo, alguma coisa acontece e, eventualmente, ele termina. Às vezes com sucesso. Às vezes com uma mensagem de erro que ocupa metade do terminal.

Mas termina.

Ou deveria.

Já tive alguns processos que discordaram disso.

Na vida real, as coisas parecem funcionar de outra maneira.

Existem despedidas que não têm muita cara de despedida.

Às vezes você fecha uma porta sabendo que provavelmente vai abri-la de novo. Só não sabe quando. Talvez amanhã, talvez daqui a alguns meses.

E o mais estranho é que, depois de um tempo, você começa a reconhecer o som daquela porta se fechando.

Não significa que fique mais fácil.

Só fica familiar.

Eu costumava pensar que, quando alguma coisa terminava, deveria existir algum momento específico em que você simplesmente perceberia.

Uma última conversa. Uma última vez em algum lugar. Alguma coisa que separasse claramente o antes do depois.

Mas nem sempre acontece assim.

Às vezes você só percebe que faz algum tempo desde a última vez.

E continua fazendo suas coisas.

Acorda, trabalha, estuda, escuta música, abre o computador e tenta descobrir por que alguma coisa que funcionava ontem resolveu parar de funcionar hoje.

O mundo tem essa mania meio inconveniente de continuar acontecendo.

Mesmo quando parece que alguma parte dele ficou parada.

Lugares que continuam esperando

Tenho trabalhado em uma coisa um pouco diferente ultimamente.

Ainda envolve programação, obviamente. Acho que já perdi a capacidade de ter uma ideia sem imaginar como transformá-la em um repositório.

Mas, desta vez, comecei pelo sentimento.

Não pela arquitetura, pelas tecnologias ou por uma lista de funcionalidades.

Comecei pensando em um lugar.

Um lugar onde as pessoas chegam, passam algum tempo e, eventualmente, precisam ir embora.

Ainda não sei exatamente como quero que tudo funcione.

Sei que gostaria que existissem pequenos detalhes que, à primeira vista, não parecem importantes.

Uma cadeira que continua no mesmo lugar.

Uma luz acesa em uma janela.

Duas xícaras sobre uma mesa, mesmo quando só existe alguém para beber.

Talvez ninguém repare.

Tudo bem.

Gosto da ideia de construir coisas que não precisam ser explicadas imediatamente.

Na maior parte do tempo, quando estou programando, quero que tudo seja bastante claro. Uma função deve fazer aquilo que promete. Um botão precisa ter um propósito. Um erro deveria dizer o que deu errado.

O que, aparentemente, ainda é pedir demais de alguns programas.

Mas nem tudo que criamos precisa funcionar desse jeito.

Às vezes, quero que alguém encontre alguma coisa e simplesmente sinta que já esteve ali antes.

Mesmo que nunca tenha estado.

O problema de voltar

Existe uma coisa que me intriga nos reencontros.

A gente costuma imaginar que voltar significa encontrar aquilo que deixou para trás.

O mesmo lugar. As mesmas pessoas. As mesmas conversas.

Mas não existe uma maneira muito boa de pausar o mundo enquanto estamos fora.

As coisas continuam acontecendo.

Alguém muda os móveis de lugar. Uma árvore cresce. Uma parede ganha uma rachadura que não estava ali antes.

E nós também mudamos, mesmo sem perceber.

Talvez seja isso que torna alguns retornos tão estranhos.

Você reconhece tudo.

Mas alguma coisa parece ligeiramente fora do lugar.

Tenho pensado em como representar isso em código.

Não necessariamente com grandes acontecimentos ou diálogos que expliquem ao jogador o que ele deveria sentir.

Talvez seja suficiente voltar a um lugar e perceber que uma pequena coisa mudou.

Ou que alguma coisa permaneceu exatamente igual, quando todo o resto já deveria ter mudado.

Ainda estou tentando descobrir.

É engraçado porque, tecnicamente, fazer um objeto permanecer no mesmo lugar é bastante fácil.

Fazer isso significar alguma coisa é outra história.

Coisas que deixamos para trás

Acho que despedidas não acontecem apenas entre pessoas.

Às vezes nos despedimos de lugares, de hábitos ou de coisas que costumávamos querer muito.

Às vezes nem percebemos que estamos fazendo isso.

Você passa anos imaginando que algum dia vai ter coragem para começar alguma coisa.

Então, em uma terça-feira qualquer, começa.

Não tem música de fundo.

Ninguém aparece para anunciar que uma nova fase da sua vida começou.

Você só faz aquilo que antes parecia impossível.

E no dia seguinte ainda precisa lavar a louça.

Tenho gostado dessa parte de crescer.

Não exatamente da louça.

Mas da sensação de que algumas coisas que pareciam tão distantes agora estão um pouco mais perto.

Ao mesmo tempo, é estranho perceber que certas versões de nós mesmos vão desaparecendo sem nenhuma despedida.

Acho que não existe uma maneira de guardar todas elas.

Talvez nem devesse existir.

Mas às vezes gostaria de poder voltar por alguns minutos e contar algumas coisas para alguém que eu costumava ser.

Provavelmente ele não acreditaria.

Eu também não sei se acreditaria.

Ainda não encontrei um final

Não sei se tudo isso vai funcionar como imagino.

Talvez eu passe semanas tentando transformar um sentimento em uma mecânica e descubra que ela não funciona.

Talvez os diálogos fiquem estranhos.

Talvez ninguém entenda por que existem duas xícaras naquela mesa.

Ou talvez alguém entenda uma coisa completamente diferente daquela que eu estava pensando.

Na verdade, acho que gostaria disso.

Não quero que cada detalhe tenha uma resposta escondida esperando para ser descoberta.

Algumas coisas podem simplesmente existir.

Como uma música que nos lembra de alguma coisa que já não conseguimos explicar direito.

Ou um lugar que parece familiar mesmo depois de muito tempo.

Ou uma despedida que, de alguma forma, continua acontecendo.

Ainda tenho muito código para escrever.

E algumas coisas para descobrir que provavelmente não têm nada a ver com programação.

Não sei exatamente como essa história termina.

Talvez eu descubra enquanto a construo.

Ou talvez algumas coisas simplesmente não saibam como terminar.

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